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BELZEBARON

 



Belzebaron 

O ar na fenda entre o Ser e o Não-Ser não tinha peso, temperatura ou cor. Era a fronteira definitiva — o véu ontológico onde a matéria desaprendia como existir, um pântano invisível de podridão concitual.

Para Belzebaron, a jornada até aquele instante fora medida em sangue, fuligem e vitórias amargas. Seiscentas e sessenta e cinco sombras gigantescas haviam caído sob seus punhos grotescos. Ele absorvera a essência de dezenas delas ao longo de eras de carneficina: dominava as chamas abissais do Titã de Cinzas, a velocidade taquiónica dos Vermes de Éter e a geometria distorcida dos demônios angulares. Seu corpo estelar, outrora uma carcaça reluzente de titânio sombrio e runas escarlates, tornara-se um repositório vivo de pesadelos adaptados.

Faltava apenas um. O 666º Monstro.

A criatura não tinha garras, asas ou dentes. Ela residia exatamente no limiar da realidade, camuflada pelo próprio tecido da existência. Não podia ser ferida por feixes de energia quântica ou golpes de massa infinita, pois qualquer ataque direcionado a ela atravessava o plano físico e se dissolvia no vácuo da insignificância.

O Glifo Abissal encravado no centro de sua testa — um símbolo grotesco esculpido na própria estrutura do seu crânio — emitia uma luminescência púrpura soturna e fria. Aquele selo era a manifestação suprema do seu domínio mental, o receptáculo onde a força de sua vontade imperava sobre a matéria e sobre a dor. Ele sabia o que precisava ser feito. O monstro não exigia destruição física; exigia ancoragem. Para torná-lo tátil por um único fração de segundo, Belzebaron precisaria estender a mente e a alma para além do Limiar da Criação.

E o preço de alcançar o Não-Existir era deixar a sua própria identidade lá para sempre.

Belzebaron ergueu os braços, cruzando-os na posição clássica de disparar sua arma mais devastadora, mas não para disparar energia. Ele canalizou todas as 665 habilidades acumuladas e a totalidade da sua capacidade psíquica no Glifo de sua testa. Ele queimou a imunidade térmica, abriu mão do voo antigravitacional e sacrificou a própria regeneração celular. Ele desmantelou cada dom conquistado na jornada para alimentar um único e definitivo surto de vontade absoluta. A mente sobrepujou o resto, mas consumiu o recipiente.

A armadura sombria em seus ombros começou a estalar e se desintegrar em poeira cósmica. Sua carne estelar acendeu-se num branco cegante, estilhaçando sua humanidade interior.

— Pela minha dimensão... — a voz de Belzebaron ecoou como o trovão de um universo moribundo.

Ele avançou. O espaço ao redor dele rasgou-se como pele podre. À medida que cruzava o véu, a realidade começou a cobrar a dívida: a perna esquerda do herói deixou de ter história, desvanecendo-se da memória do próprio tempo. Seu braço esquerdo virou névoa intocável. O calor de sua essência foi drenado a zero absoluto. Sua própria alma, distorcida pelo esforço psíquico do Glifo, começou a rasgar-se, apagando quem ele fora, seus nomes, seus sentimentos e sua consciência individual.

Mas a sua mão direita — movida unicamente pelo pulso cego daquele símbolo na testa — permaneceu sólida por um derradeiro instante.

O Monstro 666 sentiu a aproximação. A entidade, uma massa disforme de conceitos esquecidos e paradoxos puramente conceituais, tentou se retrair ainda mais para o fundo do nada. Mas já era tarde.

Belzebaron estendeu o braço rasgado, superando a atração gravitacional do próprio esquecimento, e tocou a carcaça intangível do monstro.

O contato durou um milionésimo de segundo. Foi o suficiente.

Ao ser tocado por algo que sustentava uma vontade tão incansável e uma definição tão absoluta de existência canalizada pelo Glifo, o paradoxo que mantinha a besta ruiu. A entidade, que só subsistia por nunca ter sido perceida, foi forçada a encarar a própria verdade.

O que eu sou? — a pergunta ecoou no âmago da besta.

Se eu posso ser tocado, eu existo. E se existo neste vácuo... eu não deveria existir.

O questionamento ontológico agiu como um ácido corrosivo na mente da criatura. A certeza da destruição propagou-se por suas estruturas conceituais. Em um espasmo silencioso, a besta começou a colapsar sobre a própria dúvida, desfazendo-se em uma espiral autorreferencial de autodestruição até desaparecer por completo. Nenhum vestígio restou. Nenhum eco.

A contagem estava completa. 666.

Na imensidão do vazio, o Glifo na testa de Belzebaron — agora rachado, vertendo uma matéria escura e desprovido dos antigos poderes extravagantes — disparou um único feixe de luz negra vertical. As portas da Dimensão Sombria, seu lar esquecido, abriram-se com o rugido de mil portais dimensionais.

O herói deu o último passo à frente, cruzando o limiar.

Porém, o sacrifício cobrara seu preço definitivo. O processo de tocar o Não-Existir não consumira apenas a sua carne ou seus poderes; arrancara-lhe o ser. Ao atravessar o portal, Belzebaron não ergueu os braços em vitória. Ele não pôde sorrir, nem chorar, nem sentir o solo da sua terra natal.

O herói que partira não existia mais. O que emergiu da fenda foi apenas uma sombra disforme, uma espectro sem nome, sem voz e sem substância. Ele retornara à Dimensão Sombria, mas como uma mera consciência condenada e passiva — uma presença invisível drifting pelas terras macabras, incapaz de interagir com o mundo, tocar as pessoas ou ser notado por qualquer ser vivo.

Ele alcançara o seu lar, mas sua única recompensa para a eternidade seria presenciar em silêncio a vida dos outros, existindo apenas como o rastro de um pensamento que o universo já havia esquecido.

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