*O Posto Eterno*
O corpo de Endamidas não sentia frio, calor ou mesmo o vácuo. Os poderes cósmicos, infusos em sua armadura e em cada célula de seu ser, o sustentavam em um estado de perpétua suspensão. Ele flutuava na escuridão entre as estrelas, um pontinho vibrante contra o pano de fundo infinito da Via Láctea.
À sua frente, o planeta Loskes era um disco de safira e esmeralda. Ele o via girar, lento e majestoso, a vida seguindo seu curso imperturbável sob sua vigilância silenciosa.
E, a apenas um ano-luz de distância, estava Ekol.
A Fera Galáctica era menos uma criatura e mais um fenômeno. Uma cabeça disforme e multicolorida de energia e matéria escura, retorcida em um pesadelo surreal que desafiava a própria geometria. Seus “olhos” eram buracos de minhoca giratórios, suas “mandíbulas” eram filamentos de poeira cósmica condensada. A cada milênio, Ekol avançava, impulsionado por uma fome que consumia estrelas.
O ritual era simples, mortal e eternamente repetitivo.
Endamidas fechou a distância final, parando a exatamente meio milhão de quilômetros do corpo frontal de Ekol. A armadura, com seus tons de néon e metal, resplandeceu. Ele não precisava erguer os punhos ou canalizar uma explosão de energia. Ele apenas precisava estar ali. A presença dos poderes de Loskes, o brilho frontal e inabalável do Guardião, era o limite que a fera instintivamente respeitava.
> "Mais um milênio...", pensou Endamidas, a voz em sua mente soando como um eco distante no vácuo.
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Ele era o sucessor de dezenas de guerreiros, todos caídos não em batalha, mas de esgotamento espiritual ao longo de eras. O combate não era entre socos e raios, mas entre a Fome Cósmica de Ekol e a Determinação Estática do Guardião. A fera não parava por medo, mas por um cálculo instintivo de custo/benefício; a energia necessária para superar aquele Guardião era maior do que a recompensa imediata.
Sua armadura pulsava. Era o único som que existia para ele.
> "Eu vejo a luz, vejo as cidades de Loskes crescendo, vejo as guerras terminando e começando de novo. Eu vejo meus filhos e os filhos deles se tornando pó."
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A monotonia era a verdadeira inimiga. A adrenalina de uma luta feroz teria sido uma bênção. Em vez disso, Endamidas estava condenado à vigilância pura.
Ele tentou focar nos detalhes. A forma como o azul-ciano de seu visor refletia os gases de Ekol. A pequena nebulosa que passava lentamente atrás da fera, marcando o tempo. Contar as estrelas. Lembrar-se do cheiro da chuva em Loskes.
> "Quando serei livre? Quando Loskes estará realmente seguro? Ou essa é a maldição: proteger o mundo, mas perder a chance de viver nele?"
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Endamidas respirou fundo, embora não precisasse. Era um ato de lembrança. Seus punhos, prontos para gerar energia caso Ekol se movesse, permaneceram firmes. A armadura era uma prisão de metal e poder, mas o que importava era a sua posição.
Ele era o escudo. Ele era a cerca. E ele ficaria ali, eternamente, até o dia em que Loskes pudesse encontrar uma solução, ou até que o próximo Guardião assumisse seu posto.
A escuridão engoliu o pensamento. Endamidas olhou para Ekol, o monstro imóvel, e ficou em silêncio.
O posto estava assumido.
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