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CYBER SOULGER

HEISEI: CÓDIGO FINAL – PARTE 1/3

*“Prólogo: O Circuito Oculto”*

"Era Heisei, 1999. Últimos dias do século. Primeiro ano do fim."

A cidade de Tóquio estendia-se em neon como uma placa-mãe viva, pulsando em tons de violeta, azul e vermelho. Painéis de CRT crepitavam com anúncios de tecnologia e medo. Acima, o céu estava carregado de nuvens lilases cortadas por relâmpagos. Havia tensão elétrica no ar — literal e figurativamente.

"Dizem que quando o ano 2000 chegar... tudo vai colapsar."

Num canto esquecido de Shinjuku, uma velha televisão exibia, em preto e branco distorcido, um noticiário alarmante: “O bug do milênio pode causar a falência dos sistemas militares, de energia e da segurança nacional”. A imagem tremeluzia. A transmissão era cortada, como se alguém não quisesse que a verdade continuasse no ar.

"Mas o bug é só cortina de fumaça."
Sob uma base secreta no subsolo do distrito governamental, dados criptografados passavam por uma linha de luz azulada. Uma tela exibiu o símbolo da organização secreta KAIROU — uma serpente estilizada formada por circuitos. Nos corredores, o som de botas metálicas ecoava sobre o aço.

"O Japão se enfraqueceu. Está na hora de restaurar sua alma de aço."
O General Takahiro Jinguji, ex-comandante das Forças de Defesa, observava um mapa holográfico projetado sobre a mesa de comando. O Palácio Imperial piscava em vermelho. Um satélite orbital girava lentamente ao lado de seu nome: “Satsujin-00”.

"Se o imperador não ceder, será deletado da história."
Ele falou com frieza. Ao seu redor, oficiais cibernéticos sem rosto recebiam ordens, sincronizados como drones. Soldados mecanizados marchavam por túneis, carregando cabos grossos e baterias vivas. Era o início de uma operação que mudaria o Japão — à força.

"Eles querem resetar o país inteiro. Em nome de uma nova ordem."
Num laboratório escondido nos escombros de uma torre abandonada, o corpo de um homem estava preso a uma máquina, envolto em fumaça e cabos. Seu peito foi fechado com placas vermelhas e cinzas. Os olhos se acenderam como faróis.

_"Sistema Raijin MK-I... online."_
Ele abriu os olhos. A cabeça girou lentamente. As mãos cerraram os punhos com firmeza. As luzes de emergência se acenderam, revelando a armadura vermelha recém-ativada. Ele respirava com dificuldade, como quem voltava da morte.

"Acordou tarde demais, traidor."
Três soldados com capacetes pretos e olhos vermelhos entraram, armados com rifles de plasma. Apontaram direto para ele.

"Ainda a tempo de impedir vocês."
Raijin avançou antes que pudessem atirar. O primeiro soldado foi arremessado contra a parede com um soco no peito. O segundo tentou disparar, mas o braço dele foi esmagado por uma torção precisa. O terceiro correu — e voou longe com um chute giratório que o fez atravessar o vidro da sala.

De repente, a parede lateral explodiu em fumaça.

"Você é tão barulhento quanto diziam os boatos."
A voz era feminina. Dela surgiu uma figura esguia com armadura branca e dourada, o visor projetando luz azul. Era Kaguya. Ela segurava um pequeno disco metálico que lançou ao ar. Um holograma foi ativado: dados em espiral, código hexadecimal, o mapa orbital do satélite Satsujin-00.

"O nome do projeto é 'Hino da Nova Ordem'. Satélite de controle total. Ativação programada para meia-noite do dia 31 de dezembro."

Raijin caminhou até o holograma, ainda ofegante. Seus olhos acompanharam a linha de código até um nome destacado: KAIROU.

"Eles vão usar o bug do milênio pra derrubar o imperador.
Kaguya desativou a projeção e guardou o disco em sua cintura.

"Eu tenho os dados. Você tem o poder. Agora temos 48 horas."
Ela virou-se, caminhando em direção à saída.

"Então vamos dar um jeito nisso antes que eles reiniciem o país."
Raijin a seguiu. Tóquio ardia em néon à frente deles, como um campo de batalha que ainda não sabia que era um. Acima, um raio cortou o céu como uma rachadura na realidade. A contagem para o fim começava ali.
*Sinais de Ruína*
"Central de defesa bloqueada. Todos os canais de comando estão redirecionados para a Torre CODE-ARC." - A voz mecânica ecoava do console que flutuava no centro da sala de servidores. As luzes piscavam com urgência. Linhas de código corrompido escorriam pelas telas como sangue digital.

Raijin chutou uma das portas internas, forçando passagem até a espinha dorsal da rede. Os dois atravessavam os subterrâneos da cidade — passagens desativadas do metrô e túneis esquecidos. A cada passo, mais faíscas, mais cabos expostos.

"Eles fizeram isso devagar. Esvaziaram o governo de dentro pra fora."
A voz de Kaguya era firme, mas amarga.

"Vazaram todos os sistemas pra IA CODE-ARC. E depois trancaram as chaves com eles mesmos."
Ela deslizava os dedos pela parede, ativando portas com pulsos eletromagnéticos.

"Os militares tomaram os ministérios. A KAIROU tomou o resto."

Raijin olhou para cima. No teto, painéis antigos com o brasão imperial estavam pintados com um novo símbolo: a serpente-circuito da organização.

"Nem o imperador sabe que está sitiado."
A frase ficou no ar como fumaça. Eles haviam chegado ao centro.

Num salão blindado abaixo do Palácio de Justiça, dezenas de soldados cibernéticos estavam conectados a uma única mente — todos respirando em uníssono, olhos apagados.

"São cópias. Clones digitais. Criados pra substituir os líderes reais."

Kaguya revelou o segredo com um tom contido. Não havia tempo para indignação.

"E o imperador?"
Raijin perguntou com tensão.

"Preso na ala do bunker real. Se eles ativarem o protocolo SIGMA, ele será apagado do sistema — como se nunca tivesse existido."
Ela aproximou um mapa projetado com os pontos de ataque.

"E o satélite?"

"Já está pronto. O vírus ‘Hino da Nova Ordem’ será transmitido à meia-noite. Apagará registros civis, constituição, justiça, identidade. Eles vão reconstruir o país do zero e ainda vão colocar a culpa disso nos computadores".
Sirene.
Explosão.
A parede atrás deles desabou com violência. Dela saiu uma figura enorme, coberta por uma armadura negra com circuitos dourados pulsantes. Dois olhos azuis queimavam no capacete como brasa fria.

"Keiji Amuro."
A voz saiu metálica, porém humana.
Raijin congelou por um instante. Reconhecia aquela voz.

"General Jinguji."

"Você devia estar morto."
O general deu um passo à frente, enquanto seu exoesqueleto tilintava.
"Estava. Até descobrir o que vocês estavam fazendo."
Raijin preparou o punho.

"Você era um herói. Agora é só um sintoma. O Japão precisa de cura."
Jinguji abriu as costas do traje e revelou uma mochila de energia que tremia em azul.

Kaguya interveio, ativando um campo de distorção.

"Você quer reescrever o passado com armas e satélites? Isso é loucura."

"Não. Isso é reestruturação."
Jinguji ergueu a mão. Soldados despertaram dos casulos. Um exército.

O combate foi terrível, a superioridade numérica dos soldados oprimia a dupla enquanto Jinguri andava de um lado para o outro acessando terminais digitais. A uma certa altura os dois conseguiram se livrar da centena de soldados que se atiravam sobre eles e avançaram contra o general de armadura.

Raijin foi o primeiro e avançou como um raio. Golpeou dois inimigos antes de pousar um chute no peito do general. As paredes tremeram.

Kaguya se deslocava entre os soldados, usando seu campo de invisibilidade e disparando campos eletromagnéticos que derrubavam os circuitos dos clones. Ela atingiu o gigante cibernético na nuca deixando ele baqueado.

"Eu vou para a torre de transmissão!"
gritou ela, desviando de um disparo.

"Vai sozinha?"

"Alguém tem que impedir a subida do sinal!"

Raijin assentiu.

"Então eu seguro o inferno aqui."

Atrás deles, Jinguji se preparava para a ativação total de sua armadura, motivo pelo qual não havia atacado a dupla anteriormente.

"Você não tem ideia do que está defendendo, Keiji. Essa democracia falha... esse imperador inerte... tudo isso acabou. À meia-noite, o Japão renasce."

"Não vai haver renascimento sem memória."
respondeu Raijin, em posição de ataque.

"Então vai morrer com as cinzas."

E os dois colidiram como tempestade e trovão.
A poucos quilômetros dali, Kaguya deslizava por uma passarela suspensa enquanto drones atiravam nela. Cada segundo perdido aproximava o mundo do reinício.
No visor do capacete, a contagem já piscava em vermelho:

*23:46:18*
*HEISEI: CÓDIGO FINAL – PARTE 3/3*

*“Último Registro”*

_"Você não pode vencer isso, Keiji."_

A voz de Jinguji reverberava como um trovão metálico dentro do salão de aço. Sua armadura agora havia se expandido em um exoesqueleto titânico, alimentado diretamente pelo reator da KAIROU. Suas mãos eram garras de energia. Seus olhos, faróis de ódio.

"Você não pode parar a marcha da história."

Raijin cambaleou após o impacto. A lateral de sua armadura estava rachada, faíscas saíam dos ombros. Mas seus olhos continuavam firmes.

"Você não é a história. É só mais uma falha tentando reescrever o que não entende."

Ele investiu novamente.
Punho contra punho. 
A sala inteira tremeu com o impacto. A energia do confronto se espalhou como um trovão subterrâneo.

Enquanto isso, no topo da torre CODE-ARC, Kaguya alcançava o terminal principal.

_"Conexão iniciada. Satélite Satsujin-00 pronto para transmissão."_

O sistema piscava em vermelho. A interface era antiga, hostil. Linhas de comando em japonês formal corriam na tela como um canto fúnebre.

"Vamos ver se você canta afinado, Hino da Nova Ordem."

Kaguya conectou seu próprio núcleo neural à rede. Os cabos se enrolaram em seu corpo. Sua mente mergulhou no fluxo digital. Imagens de Tóquio, dados civis, identidades, memórias — tudo estava ali, prestes a ser reescrito.

De volta ao subterrâneo, Jinguji prendia Raijin contra a parede, esmagando seu visor com o braço hidráulico.

"Você lutou bem, mas está lutando por um mundo que já expirou."

Raijin respondeu com um sorriso fraco.

"Então deixa eu te mostrar como o passado lida com traidores."

Com um esforço final, ele ativou a autodestruição do seu núcleo. Um alarme vermelho acendeu na armadura dele.

"Você não teria coragem."
disse Jinguji, hesitando.

"Eu já morri uma vez, general. Essa é só a atualização."

Ele agarrou Jinguji e o puxou para perto, travando os dois num abraço letal.

Lá em cima, Kaguya enfrentava a versão digital do vírus — uma entidade gigantesca feita de dados distorcidos, com o rosto do próprio imperador corrompido.

"Você não é ele. Nunca será."
gritou ela, disparando seu código contra a figura.

O vírus explodiu em luz. As telas apagaram. O satélite travou a transmissão.

No mesmo instante, o subterrâneo inteiro foi engolido por uma explosão branca e muda. O tempo parou.
Silêncio.

Na manhã seguinte, Tóquio estava de pé. O céu estava limpo. As torres ainda brilhavam.

"O incidente foi contido. Nenhum dado foi perdido."
disse o noticiário oficial.

Mentira.

O palácio foi reforçado. O nome de Jinguji foi esquecido.

Kaguya observava a cidade de um telhado. Estava sozinha. Seu capacete pendia ao lado do corpo. Os olhos estavam cansados, mas vivos.

Ela ativou um comunicador improvisado. Estático.

_"Raijin? Me escuta?"_

Nada. Apenas ruído.

Mas num telão da cidade, entre propagandas de refrigerante e tecnologia, uma imagem piscou discretamente: um relâmpago vermelho sobre um fundo preto.

Ela sorriu.

"Você virou parte da rede, né...?"

Ela fechou os olhos por um segundo.

"Então fica de olho. Ainda tem muita coisa podre nesse sistema."


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