O metal da estação Aethelgard não apenas rangia; ele lamentava. A cada passo de Lashi, o som reverberava pelos corredores ocos, subindo pelas suas botas e se alojando na base de seu crânio. A escuridão ali não era absoluta, mas mastigada por luzes de emergência intermitentes que pintavam o chão de um vermelho doentio.
— Raphe, você ainda está aí? — A voz de Lashi saiu como um sussurro, mas no silêncio da estação, pareceu um grito.
— Sempre, Lashi. O sinal está oscilando, mas eu sou seus olhos no escuro. — A voz de Raphe veio pelo comunicador, filtrada por uma estática reconfortante. — Vire à esquerda no próximo cruzamento. O setor de engenharia está logo depois do refeitório. E, Lashi... cuidado com os pés. Os sensores indicam que a gravidade está instável nesse bloco.
Ela parou diante de uma mesa virada. No chão, um tablet de dados quebrado exibia o último registro de um tripulante: uma imagem granulada de um homem com os olhos cobertos por bandagens, escrevendo freneticamente sobre "A Luz que nos Julga".
— Eles ficaram loucos, Raphe. O que quer que tenha acontecido aqui, não foi um acidente técnico.
— Foco nas células, Lashi. Sem elas, a nossa nave também será um caixão de luxo. Mas... espere. — Houve uma pausa longa, preenchida pelo som de teclas sendo batidas rapidamente do outro lado. — Estou captando uma leitura térmica. Setor médico, logo acima de você. É pequena. Fraca. Parece... uma criança.
Lashi sentiu um aperto no peito que nenhuma lógica de sobrevivência conseguia dissipar.
— Uma criança? Em uma estação abandonada há cinquenta anos?
— A assinatura é real, Lashi. E ela está se movendo. Está vindo na sua direção.
Lashi empunhou sua lanterna. O feixe de luz cortou a poeira suspensa e revelou uma figura pequena ao final do corredor. Era uma menina, usando um pijama cinza surrado, o cabelo pálido caindo sobre o rosto. Ela não chorava. Apenas apontava para uma porta de segurança lacrada, onde o brilho das células de energia pulsava em um azul elétrico.
— Ei... está tudo bem — mentiu Lashi, aproximando-se devagar. — Eu vou tirar você daqui.
A menina não respondeu. Ela apenas recuou para dentro da câmara de energia.
— Lashi, algo está errado — a voz de Raphe subiu um tom, carregada de urgência. — A massa biológica dela está expandindo. Os sensores de densidade estão ficando loucos! SAIA DAÍ AGORA!
Mas a porta de segurança se fechou com um estrondo hidráulico, isolando Lashi. A luz das células de energia aumentou de intensidade, revelando a silhueta da menina contra o brilho. Então, o horror começou.
O corpo da criança não cresceu; ele se desdobrou. A pele pálida se enrrugou como papel molhado, revelando uma criatura serpenteante com escamas de um roxo metálico por baixo. O tronco se enrrugou, alongando-se em metros de um corpo sinuoso que lembrava uma serpente, mas com a espessura de uma bengala. Onde deveria estar a cabeça, não havia boca ou nariz. Havia apenas um imenso, úmido e inteligente globo ocular amarelado com veias, ocupando todo o espaço frontal da criatura.
Lashi grita: JA SA GATTAI! Uma transformação miraculosa aconteceu, seu cachecol vermelho lhe envolveu e deu forma a uma armadura densa e pesada para aquele ambiente transformando o traje de combate em uma espécie de prisão pessoal, o coração martelava contra as costelas.
— Raphe! Ela... ela não é uma menina!
— Lashi! Por que chamou a Alpha red? O que você está vendo?
O olho gigante focou em Lashi. A pupila se contraiu e uma voz, que não passava pelos ouvidos, mas ecoava diretamente no córtex cerebral dela, preencheu a sala.
"Eles me chamavam de O Clarividente. Eles me queriam para ver o futuro, mas só suportaram ver o próprio passado."
A cobra se aproximou, sua cabeça de olho pairando a centímetros do capacete de Lashi. Não havia agressividade, apenas uma solidão abissal. A criatura deslizou sua cauda em direção ao terminal de energia, conectando-se aos cabos e transferindo, com um estalo de eletricidade, a carga necessária para as células de Lashi.
— Você está nos ajudando? — perguntou Saris, a respiração voltando ao normal.
"Eu quero ver as estrelas de novo, não apenas o teto deste túmulo", a voz ecoou. "Leve-me. Eu serei seu guia. Eu vejo o que o seu amigo na nave não pode ver."
A porta se abriu. O silêncio da estação foi substituído pelo alarme de evacuação.
— Lashi! Você está viva? O que aconteceu? — Raphe gritava no comunicador.
Lashi olhou para a criatura, que agora se encolhia, tentando ocupar menos espaço, o grande olho brilhando com uma expectativa quase humana.
— Eu consegui as células, Raphe — disse Lashi estendendo a mão para a criatura enquanto a armadura se dissolve — E encontrei uma sobrevivente. Prepare a câmara de quarentena. Vamos ter uma passageira.
Comentários
Postar um comentário